Depois dos posts dos amigos Davidson Fellipe (“Proposta de emprego no Rio de Janeiro, aceitar ou não?”) e Fellyph Cintra (“5 coisas que você NÃO deve fazer quando receber uma proposta de emprego em outra cidade”) resolvi escrever sobre as minhas experiências de quando decidi deixar o Brasil e vim trabalhar na América do Norte.
Para começo de conversa, boa parte do que eles falaram se aplica internacionalmente: escolher bem onde vai morar, pesquisar custo de vida, saudade da família e amigos, etc.. Porém, aceitar o desafio de trabalhar no exterior incorre ainda em outras peculiaridades.
Imigração
Este é o tópico mais sensível. Ao receber qualquer proposta de trabalho para o exterior, devemos nos certificar que o processo de imigração será feito corretamente: qual o tipo de visto, validade e restrições. Meu conselho: faça o dever de casa. Pesquise por conta própria, pergunte aos amigos, etc.. Enfim, saiba onde está pisando. No Canadá, há um tipo de visto de trabalho que é patrocinado pela empresa que lhe contrata (Work Permit), que é temporário e ligado ao vínculo empregatício, e um visto de imigração, permanente e sem laços com qualquer empresa. A vantagem to Work Permit é que sai rápido (~2 meses) enquanto o processo para o visto permanente pode levar mais de 1 ano. No meu caso, fui inicialmente com o Work Permit e apliquei para o visto permanente quando já estava lá o que me rendeu um processo de imigração permanente mais rápido por já estar no Canadá com emprego estável. Como já contei, acabei mudando para os Estados Unidos. Por aqui há vários tipos de vistos temporários e também vistos de imigração. Pela minha experiência, enquanto o Canadá é um país que precisa de mão-de-obra qualificada e onde a imigração é incentivada, nos Estados Unidos o processo de imigração é um pouco mais complicado, quase sempre tendo que ser patrocinado. No fim das contas, tenha certeza de permanecer legal quando estiver fora do Brasil. Imigração ilegal pode lhe render deportação e proibição de voltar ao país estrangeiro.
Língua
Não pense que inglês meia-boca vai dar conta do recado. Quando mudei para o Canadá, já estava acostumado a tratar e falar em inglês o tempo todo. Porém, é bem diferente quando se está cercado de inglês por todos os lados. Nos 3 primeiros meses, chegava em casa um caco, super cansado. Isso por que o meu cérebro fazia cerca de 5 operações em cada diálogo: escutar, traduzir, elaborar a resposta, traduzir novamente, falar. Falta de fluência. Além disso, em muitos casos, dominamos o vocabulário técnico, mas escorregamos em coisas simples como “fralda”, “berço” ou “carrinho de bebê” (mudei pro Canadá quando minha filha tinha apenas 1 mês). Isso pode causar situações tanto engraçadas quanto constrangedoras.
Cultura
Em geral, latinoamericanos (e consequentemente brasileiros) são culturalmente muito diferentes das pessoas da América do Norte. Somos mais acolhedores e camaradas, menos competitivos e mais colaborativos. Fazemos piada sobre tudo no Brasil enquanto por aqui há várias coisas que são tabus. Contato físico como beijos e abraços é geralmente evitado, principalmente no trabalho. Um aperto de mão é o bastante. O conceito de tempo também é algo bem diferente. Enquanto para nós, o tempo é algo que passa. Por aqui tempo é algo com um começo e fim bem definidos onde se desempenha alguma atividade: “time is money”. Acho isso extremamente válido para o trabalho, mas é curioso ver que mesmo ocasiões sociais obedecem a regras de horário. Há um certo protocolo que determina inclusive a hora de ir embora. Isso é muito estranho para que está acostumado a não ter hora nem para chegar nem para sair de uma festa.
Alimentação
Tirando a família e os amigos, da comida é que sinto mais falta: comidinha caseira, suquinhos de frutas, queijinho de coalho, queijinho de manteiga, pãozinho francês – tudo assim mesmo no diminutivo. Aqui é tudo muito prático e industrializado. Geralmente, não se perde tempo fazendo comida. E comida boa leva tempo, é o que dizem. Com 1 mês aqui, não se quer ver mais fast-food (nem pintado de ouro). Comida boa em restaurantes é normalmente muito cara. A melhor coisa a fazer é descobrir lugares onde se venda produtos brasileiros e preparar aquele bom arroz com feijão em casa. Aqui compro farinha (que não pode faltar), feijão e polpas de frutas em um supermercado especializado em produtos brasileiros. Há bons restaurantes brasileiros também, alguns deles com o preço bastante razoável. Algumas coisas bem regionais como Bolo-de-Rolo, só quando alguém vem da “terrinha” e traz: que delícia! Além disso, o jantar, em vez do almoço, é normalmente a refeição mais importante. Em geral, no almoço se faz um lanche, ou “lunch”.
–//–
Claro que há muitos pontos positivos. Profissionalmente, não tenho do que reclamar. Trabalhar no exterior numa das maiores empresas do ramo é uma experiência incrível. Mesmo que se decida voltar ao Brasil, ter esse “job” no currículo é algo que pode fazer a diferença. Aprender a língua é outro diferencial importante. Ademais, rapidamente, se aprende a gostar da organização e da segurança daqui como algo que não se quer viver sem. O padrão de vida também é geralmente melhor e a valorização do Dólar em relação ao Real ainda ajuda quando se vai ao Brasil.
E aí: “are you ready?”

Muito bom o post, bastante esclarecedor. É bem importante os pontos da cultura e imigração. Ir ilegal realmente é uma grande furada.
A saída para ter festas sem hora para acabar, é chamar brasileiros para ela. =D
Também senti uma grandes diferenças culturais entre trabalhar no nordeste e sudeste. No nordeste somos menos competitivos e mais colaborativo. Já passei por 4 empresas em PE, logo já posso dizer que é bem diferente.
Comment by Davidson Fellipe — 2010/10/17 @ 13:24
Agora uma pergunta:
Qual a principal diferença cultural entre se trabalhar nos EUA e no Canadá?
Comment by Davidson Fellipe — 2010/10/17 @ 13:26
Eu diria que no Canadá senti muito mais receptividade à imigração. Acho que isso se deve ao fato de boa parte da população ser composta de imigrantes ou filhos de imigrantes. Essa seria a principal diferença na minha opinião.
Comment by Berg Brandt — 2010/10/17 @ 13:43
[...] This post was mentioned on Twitter by Hélio Bentzen, davidson fellipe , Berg Brandt, Berg Brandt, Recomendo and others. Recomendo said: Quer trabalhar no exterior: “are you ready?”, artigo do Frontend Jedi @bergbrandt > http://bit.ly/dsur3h #recomendo http://bit.ly/aLIpMl [...]
Pingback by Tweets that mention Trabalhar no exterior: “are you ready?” | bergbrandt.com - Blog - Berg Brandt - Front-End Engineer / Web Developer / Web Designer -- Topsy.com — 2010/10/17 @ 14:01
Muito legal o seu post Berg.
Tenho dúvidas quanto ao tratamento oferecido aos estrangeiros, em alguns países os brasileiros são tratados como inferiores, e/ou coisas do tipo. Neste sentido, como é por ai?
Comment by Billy Blay — 2010/10/17 @ 19:44
Muito bom, Berg.
Esses posts são bons para quem está interessado em ir, e p/ incentivar as pessoas que ainda não estão preparadas por algum(ns) motivo(s).
Trabalhar fora não é brincadeira, e numa das maiores empresas do mundo é ainda mais complicado.
Parabéns pelo cumprimento da missão.
Comment by Luiz Tiago — 2010/10/17 @ 20:06
Não há preconceito. Há restrições devido ao seu status imigratório (independentemente do país que você vem). Trabalhadores temporários não tem os mesmos direitos de imigrantes permanentes, que por sua vez, não tem os mesmos direitos de cidadãos. Isso tem algumas reflexões em pequenos detalhes como tirar a carteira de motorista ou o seguro social mas nada que são se consiga gerenciar desde que se esteja legal. Obviamente, você não se sente em casa como no Brasil.
Comment by Berg Brandt — 2010/10/17 @ 20:20
Po! Adorei o post! Fantastico!
A foto tá uma moral danada !:D
Depois posta algo sobre essa parte burocratica/legal, pois foi algo que tomou bastante tempo quando voce abordou ela no encontro frontend!
Comment by Azurem — 2010/10/17 @ 21:22
Muito bom o post Berg.
Próximo ano vou tentar aplicar algumas vagas de emprego no exterior. Já que vou me formar este ano.
Comment by Sadjow — 2010/10/18 @ 09:06
Muito bom o post Berg, parabéns. Espero que anime e “prepare” os interessados em vir pra cá. Em qualquer caso, se fizer bem feito, dá certo. Abraço forte
Comment by Demian Borba — 2010/10/18 @ 10:03
ótimo post cara, sempre bom compartilhar experiências. Tenho muita vontade de passar um tempo fora, esse período aqui em São Paulo tirou um pouco o medo de arriscar algo fora do país…
Pra mim a única barreira é o inglês e a oportunidade … hehehehehe
Boa Sorte e sucesso !!!
Comment by Fellyph — 2010/10/18 @ 10:16
Good one Berg, thanks to Google Translator that I was able to read.
Comment by techunar — 2010/10/18 @ 10:31
Nice! Probably a few things also apply to you somehow.
Comment by Berg Brandt — 2010/10/18 @ 10:36
Isso era tudo o que eu sempre quis ouvir sobre a sua experiência no exterior.
Fiquei muito curioso desde aquele papo rápido que tivemos em um encontro Front-End que aconteceu no C.E.S.A.R há aproximadamente 2 anos atrás.
Acho que mais posts nessa linha irão interessar muita gente. Aguardo novas postagens sobre o estilo de vida que levas por aí.
Um abraço e tudo de bom!
Comment by André Valongueiro — 2010/10/25 @ 04:28
Berg, parabéns pelo post cara. Informações muito valiosas. Tenho muito interesse em trabalhar no exterior um dia exercendo minha profissão. Deve ser uma experiência fantástica. Assim como o Azurem gostaria de ter mais informações sobre essa parte burocrática. E também sobre a questão de levar esposa e filho(s). Beleza cara. Forte abraço e que continue dando tudo certo por ai.
Comment by Júlio Cavalcanti — 2010/11/08 @ 05:28
Rapaz, seu texto realmente me deixa arrepiado, pois umas
das minhas maiores pretensões profissionais é trabalhar fora, pra
ser mais especifico nos Estados Unidos. Espero um dia depois de
muita dedicação ao trabalho/estudo chegar a esse patamar.
Abraço.
Comment by Sérgio Rodrigues — 2011/01/04 @ 16:39
Muito interessante sim! Levando em consideração que o ser humano se adapta facilmente, precisa-se de uma base ao destino que se quer chegar (caso do inglês).
Em falando de saudade, acho a pior das situações. Por que? Quando precisar da família ao seu lado, não tem.
Hoje sou casado com uma estrangeira (pouco mais de um ano) e estou me preparando para morar fora do Brasil (ela não quer ficar aqui). Passei dois meses fora pra ver as possibilidades, adaptação, cultura, lingua. Percebi que o nível dos profissionais que temos aqui é “multe funcional” ao que existe fora, pois fazemos mais de um papel. Nem sempre é só designer, nem sempre é só codificar. Nossa área de atuação exige um update constante.
Parabéns pelo post.
Comment by Alex Batista — 2011/01/14 @ 14:51
Show… estou com planos de trabalhar num cruzeiro gringo e suas dicas veio a calhar neste momento de decisão.
Cai aqui fazendo monografia, tinha alguma citação sua q acabou me trazendo aqui.
Vlw
Comment by jordam — 2011/04/24 @ 17:09